🔞 Classificação Indicativa: 14 anos (Contém suspense, tensão Juvenil )
Os Místicos capítulo 3 A Volta para Casa
— Caio! Acorda, moleque! Senão você vai se atrasar e eu não vou te levar de carro!
O grito estridente de sua mãe desfez a escuridão num estalo violento, como o estourar de uma bolha de sabão.
Caio deu um salto coreografado na cama, o peito subindo e descendo em uma respiração descontrolada. Suas mãos agarraram os lençóis com força, os nós dos dedos brancos pelo esforço. Ele estava encharcado de suor frio, o cabelo grudado na testa e a boca seca como se tivesse engolido areia do deserto. Ele olhou freneticamente ao redor, os olhos saltando de um objeto a outro.
O guarda-roupa de madeira compensada com a porta desalinhada. Os pôsteres de bandas de rock e jogos pregados nas paredes com fita adesiva descascando. A mochila escolar atirada a um canto. A luz amarelada e quente do sol das sete da manhã cortando as frestas da cortina de tecido barato do seu quarto.
Tudo estava em seu devido lugar. Tudo era dolorosamente, confortavelmente comum.
— Foi um sonho... — ele murmurou para as paredes vazias, sua própria voz soando estrangeira aos seus ouvidos. Levemente, levou os dedos às têmporas, massageando-as para aplacar a enxaqueca que ameaçava se instalar. — Só um sonho idiota. Uma peça que o meu cérebro pregou por passar tempo demais lendo besteiras na internet antes de dormir.
Ele balançou a cabeça, tentando chacoalhar os resquícios daquela atmosfera cinzenta para fora de sua mente. Precisava se agarrar à sua rotina automática. A rotina era sua âncora; se seguisse os passos de todas as manhãs, provaria a si mesmo que o mundo real continuava intacto e que o salão era apenas fruto de uma noite de sono ruim.
Arrastou os pés até o banheiro. Ligou o chuveiro na temperatura mais fria possível. A água congelante bateu contra suas costas, fazendo-o arfar, e por um segundo, aquele frio o lembrou da aproximação do vulto. Ele se ensaboou rapidamente, tentando afastar o pensamento. Vestiu a calça jeans , a camiseta branca da escola e desceu os degraus da escada de dois em dois.
Na cozinha, o cheiro de café passado cobria o ambiente. Sua mãe corria de um lado para o outro, organizando a bolsa de trabalho enquanto o rádio de pilha murmurava as notícias do trânsito local. Caio sentou-se à mesa, serviu-se de uma xícara de café e mordeu um pedaço de pão. Não sentiu o gosto de nada. Mastigava e engolia de forma puramente mecânica. O plano de fingir normalidade estava ruindo antes mesmo de cruzar o portão de casa.
O portal de pedra. O salão monumental. Os quadros cujos olhos se moviam de verdade. E, acima de tudo, Laila caminhando com determinação em direção ao desconhecido. Aquelas imagens não estavam borradas ou distantes como as lembranças de um sonho comum costumam ficar após cinco minutos de despertar. Elas estavam gravadas em sua mente com a nitidez de uma cicatriz fresca na pele. Sonhos não deixavam aquele tipo de ressaca física na alma. Sonhos não faziam seus músculos doerem como se ele tivesse caminhado por quilômetros durante a madrugada.
Colocando a mochila nas costas, ele se despediu da mãe com um aceno distraído e saiu para a rua. Enquanto caminhava pelas calçadas familiares do bairro, o barulho dos carros e o latido dos cães dos vizinhos pareciam distantes, como se houvesse uma parede de vidro separando-o do resto do mundo. Uma determinação fria começou a substituir o medo. Se aquilo tinha sido real, Laila era a chave. Ele precisava investigar por conta própria quem era, de fato, aquela garota que encantava a todos ao seu redor com uma facilidade que, agora pensando bem, parecia quase sobrenatural.
