Capítulo 2: O desconhecido
O horizonte diante de Patrick e Carlinhos desafiava qualquer lógica que a física da pequena cidade natal deles pudesse explicar. Diante dos olhos arregalados dos dois amigos, erguia-se uma cidade incrivelmente padronizada. As casas eram imensas, dotadas de uma iluminação perfeita e alinhadas de forma milimétrica, divididas em quadras perfeitamente bem formadas.
Olhando de cima daquela colina, a paisagem urbana ostentava uma simetria impecável, algo que parecia comum apenas nos cartões-postais de metrópoles globais.
— Rapaz, parece até uma cidade de algum país de primeiro mundo... — pensou Carlinhos alto, ajustando a visão para ter certeza de que não era uma miragem. Em seguida, cutucou o ombro do seu fiel amigo e comentou: — Será que esse portal nos levou a algum país distante? Quem sabe lá da Zeuropa?
Patrick olhou de lado e soltou um risinho, corrigindo o parceiro de aventuras na mesma hora:
— Europa, cabra trik! — Era exatamente assim que ele o chamava desde a infância.
Apesar do deslumbramento, os dois relutaram a tentar descer até lá. No fundo, a mente deles se recusava a processar a realidade: não conseguiam acreditar que ali, naquele ponto esquecido do mapa, abrigava-se um portal para outra cidade completamente diferente.
— Hein, Carlinhos, o que acha de ir lá ver? — insistiu Patrick, o pé já levemente inclinado para a descida.
— Sei não... E se for uma cidade de algum futuro distante? — rebateu Carlinhos, com o coração batendo na garganta.
— Eta, cara! Já te disse para reduzir esses quadrinhos! — Patrick brincou, tentando disfarçar o próprio nervosismo.
Era tudo inacreditável para os dois meninos. Eles passaram um tempão ali em cima, discutindo hipóteses mirabolantes e teóricas de aliens, conspirações e mundos paralelos. Toda essa paranoia era alimentada por um detalhe perturbador: olhando bem para as avenidas lá embaixo, não se via uma alma sequer andando nas ruas daquela cidade. Era um deserto de concreto iluminado.
Naquele momento, o portal mágico ainda cintilava logo atrás deles, flutuando em silêncio. Era só dar alguns passos para trás, cruzar a fenda e voltar para as suas vidas normais. Podiam simplesmente esquecer os anos que passaram procurando a tal entrada para aquela tal cidade misteriosa. Aquela mesma lenda que todos, desde a infância deles, comentavam nas conversas em casa ou nos bancos da praça da pequena cidade onde cresceram. Era só fingir que tudo aquilo era apenas um sonho esquisito que os dois tiveram em um dia qualquer.
A Descida e os Frutos Cíclicos
De repente, a atmosfera mudou. Um vento estranhamente frio tocou a pele dos garotos, um sopro gelado que fez cada um deles estremecer até os ossos. O calafrio funcionou como um despertador psicológico. Em seguida, eles se olharam bem fundo nos olhos e tiveram a certeza absoluta de que não tinha como ignorar tudo aquilo. Eles tinham o dever de investigar aquele lugar. Não podiam dar as costas para o mistério de suas vidas.
Mesmo com a decisão tomada internamente, o silêncio dos dois permaneceu por alguns segundos, pesado e tenso. Foi quando Patrick quebrou o transe, deu um passo firme à frente e disse:
— Vamos, Carlinhos.
E os dois finalmente foram em direção ao desconhecido. Conforme desciam a montanha, os detalhes da natureza ao redor começaram a cobrar o seu preço à lógica humana. Eles notaram imediatamente que a vegetação ali era completamente diferente de tudo o que conheciam. Os capins rasteiros tinham um formato bizarro que eles nunca tinham visto na vida. Algumas plantas arbustivas exibiam pequenas frutas vermelhas brilhantes, enquanto outras ostentavam frutos totalmente brancos.
À medida que eles iam descendo em direção à cidade, parecia que tudo ao redor ia se modificando gradativamente, ou simplesmente eles estavam descobrindo coisas novas a cada metro avançado. No meio daquela mata misteriosa, os olhos deles travaram em uma árvore bizarra, com a folhagem meio verde e meio azul. Eles se entreolharam pensativos: "Isso pode existir?", pareciam perguntar um ao outro em pensamento.
A árvore misteriosa estava carregada de frutas vermelhas cintilantes e bem arredondadas, que pareciam emitir uma luz própria. Os garotos, exaustos pela caminhada e movidos pela curiosidade, não resistiram. Esticaram as mãos e comeram, cada um, uma dessas frutas.
No mesmo instante em que engoliram, algo extraordinário aconteceu. Sentiram-se estranhamente saciados, como se tivessem feito um banquete completo. Mas não parou por aí: as energias deles sabidamente aumentaram de imediato, e a disposição física subiu de uma forma avassaladora, correndo pelas veias como eletricidade. Agora, o vigor era total. Não tinha mais volta. A rua da cidade estava logo ali, bem na frente desses braços aventureiros que dedicaram anos a essa busca que finalmente estava terminada.
As Cinco Barreiras
No entanto, uma coisinha crucial se passou durante a descida e os garotos simplesmente não notaram. O ar ao redor deles não era puramente físico. Durante todo o percurso de descida da colina, sem perceber, eles ultrapassaram quatro Barreiras mágicas invisíveis, que ondulavam sutilmente no espaço como membranas de energia pura.
A quinta e última barreira estava ali, bem diante deles, delimitando a transição exata entre a floresta mística e o primeiro meio-fio da calçada. Sem saber do perigo ou do feitiço, eles deram três passos à frente.
De repente, o mundo estalou. Num piscar de olhos, aquelas ruas desertas e as casas vazias que eles observavam lá de cima se transformaram radicalmente. O cenário fantasma desapareceu, dando lugar a um ambiente super movimentado e caótico.
Havia automóveis de formatos exóticos passando de um lado para o outro em alta velocidade. Uma multidão de pessoas começou a caminhar apressadamente nas calçadas, entrando e saindo de lojas vibrantes com letreiros que eles não conseguiam decifrar. O ambiente real não era nada, absolutamente nada daquilo que os garotos viram ao atravessar o portal original no topo da montanha. A calmaria tinha virado um turbilhão urbano incompreensível.
Carlinhos olhou para Patrick, com a boca aberta, ainda completamente incrédulo diante daquela ilusão desfeita. Quando ele finalmente ia começar a falar algo para expressar o seu choque, a realidade resolveu ser ainda mais bizarra.
Bem na frente dele, cortando o ar em velocidade, passa um animal voando, incrivelmente parecido com um gato, batendo asas rápidas. Logo atrás da criatura voadora, corria uma menina rindo, que aparentava ter uns 5 anos de idade. Ela estava acompanhada por uma pessoa mais velha que vinha logo atrás, tentando alcançá-la, e que só podia ser a mãe, pensaram os dois amigos ao observarem a cena familiar e ao mesmo tempo completamente irracional.
O Sobrado do Portão Verde
O choque da realidade fez com que o instinto de sobrevivência falasse mais alto. Os dois amigos continuaram a andar pela avenida movimentada, porém, agora a tática era outra: eles se espreitavam cuidadosamente entre as paredes, pilastras e cantos escuros da cidade. Moviam-se como sombras, na expectativa desesperada de não serem notados por aquela população exótica ou pelas autoridades locais.
O medo de serem capturados como intrusos fazia o coração bater no ritmo dos automóveis que passavam. Enquanto tentavam mapear o lugar sem chamar atenção, eles deslizaram para dentro de um beco lateral mais escuro e reservado.
Lá, bem no fundo da viela, avistaram um grupo de meninos e meninas conversando em círculos. Todos eles trajavam uma espécie de uniforme muito específico, cheio de detalhes e insígnias que pareciam indicar uma escola ou algum tipo de ordem local.
Patrick cutucou Carlinhos em silêncio, apontando com o queixo para além do grupo de jovens. Próximo dali, erguia-se uma estrutura que dominava o beco: tinha um sobrado imenso, de arquitetura imponente e antiga, que se destacava das construções ao redor. O que mais chamou a atenção dos garotos foi o seu portão verde massivo.
Sem que ninguém estivesse por perto para operar, o portão verde abria e fechava sozinho, em um movimento rítmico, silencioso e misterioso, como se estivesse convidando os dois rapazes a entrarem — ou avisando que algo estava prestes a sair de lá de dentro. Escondidos na parede do beco, Patrick e Carlinhos sabiam que a verdadeira aventura estava apenas começando.
Em Breve Capítulo 3
