Nem todo mistério deve ser perseguido, mas o sangue antigo não aceita o silêncio. Quando um jovem comum decide seguir os passos da garota mais popular da escola na escuridão da noite, ele acaba descobrindo um segredo guardado há gerações: portais rúnicos ocultos que conectam a Terra a um mundo em guerra. Ao cruzar a fenda, o destino de um herói lendário adormecido há milhares de anos desperta. Prepare-se para conhecer o posto dos guerreiros mais avançados de dois mundos. Bem-vindo ao universo de Os Místicos.
Os Místicos – Capítulo 1: A Descoberta parte 1
A rotina em Vilamar tinha o compasso arrastado das cidades pequenas. Para Caio, um jovem de dezesseis anos, de pele bege e cabelos pretos cortados curtos, o dia sempre começava da mesma forma. Ele ajustava a sua calça azul estilosa — cheia de bolsos laterais nas pernas que usava para carregar desde o celular até chaves e chicletes —, montava em sua bicicleta e encarava o percurso diário de três quilômetros até o Colégio Municipal.
O trajeto servia para despertar. O vento no rosto limpava a mente antes que ele cruzasse os portões da escola e encontrasse seus melhores amigos: Guilherme, Gustavo e Maria. Os rapazes dividiam a mesma sala e a mesma fileira de carteiras, enquanto Maria estudava na sala ao lado, embora fizessem parte da mesma série.
Quando o sinal do intervalo ecoava pelos corredores, o refeitório se transformava no quartel-general do grupo. Sentados à mesa de plástico azul, eles conversavam sobre tudo: videogames, futebol, as matérias chatas de física e, inevitavelmente, sobre a pessoa que parecia orbitar em um planeta completamente diferente do deles.
Laila.
Ela era a definição viva de perfeição na escola. Não importava se estava vestindo o uniforme padrão do colégio — a mesma camiseta branca sem graça que todos usavam —, Laila parecia uma celebridade de cinema caminhando pelos corredores. Meninos e meninas simplesmente suspendiam a respiração quando ela passava. Havia uma aura cativante e acolhedora ao redor dela, um magnetismo que ninguém conseguia explicar.
Além de ser a primeira da classe em todas as matérias, Laila se destacava em qualquer esporte que decidisse praticar. Até mesmo os professores pareciam hipnotizados, dando total atenção a cada palavra, trabalho ou capricho que a garota demonstrava. O abismo entre ela e o resto dos alunos não era apenas social — embora ela morasse em uma mansão cinematográfica no topo da colina e seus pais fossem donos de praticamente metade de todo o comércio local de Vilamar. O abismo parecia... de outra natureza.
— Ela não é real — Guilherme comentou em um dos intervalos, enquanto mastigava um salgado. — Tenho certeza de que é um experimento do governo.
— Deixa de ser idiota — Maria riu, dando um empurrão no ombro dele. — Ela só é perfeita mesmo. Dá raiva, mas é verdade.
Caio apenas observava Laila de longe, rindo com os amigos, sem imaginar que a normalidade daquela rotina estava com as horas contadas.
Naquela mesma semana, em uma noite qualquer, a realidade de Caio virou de cabeça para baixo. Passava das dez horas da noite quando ele finalmente se despediu de sua tia. Não era do feitio do garoto vagar pelas ruas de Vilamar àquela hora, mas seu tio estava em uma longa viagem de trabalho e sua tia precisava desesperadamente de ajuda com os afazeres domésticos pesados.
Para piorar a situação, sua fiel companheira de três quilômetros diários, a bicicleta, havia quebrado uma peça essencial no caminho de ida. Caio estava a pé.
A caminhada em direção à sua casa começou tranquila, mas a atmosfera da cidade mudou de repente. Uma neblina leve, quase imperceptível no início, começou a brotar do chão de paralelepípedos. Em poucos minutos, a névoa se intensificou, tornando-se tão densa que os postes de iluminação pública viraram apenas borrões amarelados e distantes. O ar ficou subitamente frio.
Preocupado com o horário e sentindo um arrepio incômodo na nuca, Caio resolveu cortar caminho por um beco escuro, logo atrás da praça central. Ele acelerou os passos, as mãos enfiadas nos bolsos da calça azul. O único som na rua era o eco dos seus próprios sapatos contra o chão úmido.
De repente, ele parou.
A alguns metros à frente, emoldurada pela névoa, uma silhueta familiar se movia. Caio estreitou os olhos, tentando enxergar através do véu cinzento. A altura, a postura ereta, o cabelo... Parecia Laila. O que a garota mais rica e popular da escola estaria fazendo em um beco deserto às dez da noite?
Ele deu mais alguns passos, pisando macio para não fazer barulho. O coração deu o primeiro salto descompassado. Era ela. Definitivamente era Laila.
que estendeu a mão. À frente dela, o ar começou a ondular como água. Uma fenda de luz se abriu, revelando uma espécie de porta ou portal mágico. O brilho era suave, mas intenso, misturando tons de dourado e azul-celeste. Sem hesitar por um segundo, a garota deu um passo à Mas o que ela fez a seguir desafiou toda a lógica. Laila parou diante de uma parede de tijolos magicos, atravessou a luz e sumiu completamente no ar. O portal continuou ali, exuberante e silencioso no beco.