🔞 Classificação Indicativa: 14 anos (Contém suspense, tensão Juvenil )
A Escola Municipal Thomaz Alvares erguia-se no fim da avenida principal. Para Caio, aquele lugar sempre fora o ápice do tédio e da previsibilidade. Mas hoje, ao cruzar os portões de ferro, a escola parecia um palco onde máscaras estavam prestes a cair.
O burburinho dos alunos conversando, o som de risadas histéricas perto dos armários.
— E aí, ô da poltrona? Parece que viu um fantasma, ou o bicho-papão te pegou de jeito essa noite? — A voz estridente e bem-humorada de Guilherme quebrou o transe de Caio. Guilherme deu um tapinha pesado em suas costas, quase o fazendo tropeçar.
— Deixa ele, Gui. Ele tá sempre com essa cara de quem foi atropelado por um caminhão de lixo antes das oito da manhã — brincou Maria, surgindo logo atrás, ajeitando a alça pesada de sua mochila jeans cheia de botons de bandas e símbolos de séries de animes.
Caio parou e olhou para os dois. Guilherme, com o cabelo permanentemente bagunçado e os fones de ouvido no pescoço, e Maria, com seus óculos de armação redonda e o olhar sempre analítico. Eles eram a sua realidade. Eles eram seguros.
— É... só não dormi muito bem — Caio forçou as linhas de seu rosto a formarem um sorriso minimamente convincente. A voz saiu mais rouca e gasta do que ele planejava, denunciando o cansaço que seu corpo carregava. — Tive uns pesadelos estranhos, daqueles que parecem que você passou a noite correndo uma maratona.
— Se você não estudou para a chamada oral de química do professor Renato, o pesadelo de verdade vai começar daqui a pouco — Guilherme alertou, rindo e puxando os amigos em direção ao Bloco B.
Os três caminharam pelo corredor principal, trocando palavras corriqueiras sobre os prazos dos trabalhos de história, o último vídeo que viralizou nas redes sociais e as fofocas do final de semana. Caio respondia com monossílabos, acenando com a cabeça nas horas certas, mas seus olhos estavam constantemente escaneando a multidão de alunos. Ele procurava por um vislumbre de cabelos loiros e uma postura ereta. Procurava por Laila.
O sinal que anunciava o início da primeira aula ecoou pelos alto-falantes da portaria, um som estridente que fez a cabeça de Caio pulsar de dor. Eles entraram imediatamente na sala de aula, ocupando suas carteiras habituais.
Durante as três primeiras horas, que pareceram se arrastar por séculos literais, Caio foi nada mais do que um corpo presente ocupando uma cadeira de madeira e metal. A voz do professor de física, que explicava as leis da termodinâmica no quadro-negro com giz branco, transformou-se em um ruído estático de fundo, semelhante a uma rádio fora de sintonia.
Caio olhava fixamente para a página em branco de seu caderno de brochura. Sua mão direita, segurando uma caneta esferográfica azul, agia de forma quase autônoma.
Quando deu por si, percebeu que não tinha anotado uma única palavra da matéria. Em vez disso, a ponta da caneta havia desenhado, nas margens do papel, réplicas detalhadas dos símbolos estranhos e mutáveis que vira nas pilhas de papel do grande salão.
Ele observou os próprios desenhos com um misto de fascínio e horror. Como sua memória conseguia lembrar com tanta precisão de formas que ele mal conseguira compreender?
As perguntas começaram a colidir em sua mente como partículas em um acelerador. Como ele havia saído daquele salão? Se o vulto o alcançara, por que ele estava vivo e sem nenhum arranhão em seu quarto? Se tudo aquilo foi real, e não um surto psicótico coletivo de sua própria mente, alguém precisava tê-lo trazido de volta para o mundo real.
Alguém o carregara pelo portal, atravessara as ruas e o colocara em sua própria cama debaixo das cobertas. E a única pessoa que estava lá com ele, a única que cruzara o portal, era ela só pode ser.
