Os místicos Capítulo 2.1
O lugar do Despertar
O ar dentro daquele salão colossal parecia não pertencer ao mesmo planeta que Caio conhecia. Tinha a densidade da água e um sabor metálico, misturado ao aroma pungente de pergaminho secular e ozônio, como a atmosfera que antecede uma tempestade de raios. Caio deu dois passos lentos à frente, o som de seus tênis ecoando contra as pedra polida, que refletiam a luz fraca das pequenas tochas.
À sua frente, a imensa mesa de madeira escura — tão antiga que parecia ter sido esculpida a partir das raízes de uma árvore milenar — sustentava pilhas e pilhas de documentos. O garoto esticou o pescoço, tentando focar a visão na folha superior do tomo mais próximo. Suas pupilas se dilataram. Ele esperava encontrar termos jurídicos, contratos ou talvez registros históricos em alguma língua arcaica que pudesse reconhecer de suas aulas de história. No entanto, o que viu fez sua cabeça girar.
As letras não passavam de garranchos retorcidos, runas geométricas que se recusavam a ficar paradas. Quando ele fixava o olhar em um símbolo, as linhas se dobravam, vibrando e mudando de forma, como se fossem pequenos insetos pretos tentando escapar da superfície branca do papel. Era uma caligrafia viva, orgânica e completamente incompreensível para uma mente humana. Uma dor aguda e pulsante começou a surgir logo atrás de seus olhos, um aviso biológico de que seu cérebro estava tentando processar algo além de sua capacidade.
Atrás dele, a temperatura despencou de forma abrupta. A umidade do salão condensou-se na respiração de Caio, que escapou de seus lábios na forma de uma névoa esbranquiçada. Ele não precisava se virar para saber que o vulto ainda estava ali. A criatura de sombras, que o perseguira desde o momento em que cruzou o portal, parou a pouco menos de três metros de distância.
Não havia rosto naquela escuridão antropomórfica, nenhuma linha que definisse olhos, nariz ou boca. Mesmo assim, Caio sentia a pressão esmagadora de um olhar gelado, faminto e implacável cravado diretamente em sua nuca. O vulto parecia se alimentar da hesitação do garoto, expandindo-se milímetro por milímetro, fazendo as sombras ao redor da mesa se esticarem de forma sobrenatural.
De repente, o silêncio opressor do salão foi estraçalhado. Ruídos começaram a surgir do nada absoluto. Primeiro, um estalar seco da madeira da mesa, seguido pelo som
de centenas de folhas de papel sendo folheadas rapidamente por mãos invisíveis. Então, vieram os sussurros. Eram vozes sobrepostas, sibilantes e graves, que pareciam emanar diretamente das molduras douradas e pesadas que cobriam as paredes até o teto abobadado. Caio arriscou um olhar rápido de relance. Os retratos de humanos com vestes medievais e de criaturas cujas feições misturavam traços animais e feições angulares pareciam estar se movendo. Seus olhos pintados brilhavam; suas bocas desenhadas na tela pareciam debater, em sussurros urgentes, a presença daquele intruso mortal.
O coração de Caio transformou-se em uma bigorna golpeando seu peito. O pânico era uma corrente elétrica que ordenava que suas pernas corressem, mas ele sabia que não haveria para onde fugir. Lembrou-se, por um lampejo de puro instinto, de que o medo era o combustível de muitas histórias de terror que lia. Forçou os pulmões a absorverem o ar frio, estabilizando o tremor das mãos. Manteve a mente fria, ou o mais próximo disso que conseguia.
Com os olhos atentos e as costas eretas, ele girou o corpo devagar em um eixo completo. Procurou a silhueta familiar. Procurou os cabelos escuros e as formas perfeitas de Laila.
Ela havia sumido.
A garota que o guiara até ali, que cruzara o portal com a naturalidade de quem entra em um cômodo de casa, desaparecera sem deixar um único vestígio ou som de passos. O salão estava deserto, exceto por ele, pelos retratos falantes e pela sombra espreitadora.
O vulto, percebendo o isolamento do garoto, deu um passo à frente. A escuridão que o formava desprendeu-se do chão, avançando sobre Caio como uma onda de fumaça negra e sólida. O frio tornou-se insuportável, congelando os cílios do menino. O medo finalmente rompeu suas barreiras de autocontrole. Sem opções, Caio fechou os olhos com força, encolheu os ombros e esperou pelo impacto daquela escuridão.