A linha tênue entre a infância e o amadurecimento começa a romper. No Capítulo 3 de Tímido ao Extremo, mergulhamos em um emocionante e realista drama escolar no estilo slice of life (cotidiano). Acompanhamos Toni enfrentando o dilema de se sentir completamente deslocado diante das novas dinâmicas sociais e amorosas ao seu redor. Após um esbarrão inesperado com Fernanda, o jovem entra em um verdadeiro turbilhão de pressão psicológica e dúvidas morais sobre o universo feminino e os primeiros namoros da adolescência.Se você adora histórias de jovem adulto (YA) focadas em juventude (coming-of-age), crises de timidez, superação de limites sociais e os encantos e medos do primeiro amor, continue a leitura do Capítulo 3 e descubra como o mundo de Toni está mudando para sempre!
A volta para casa
A mudança na rotina, contudo, não se limitava ao espaço de dentro dos muros da escola. O comportamento de Toni após o sinal de saída também havia sofrido uma mutação. Antes, o reflexo dele ao ouvir o último sinal era disparar pelo portão afora, correndo para o conforto de sua casa.
Agora, em vez de sair imediatamente quando as aulas terminavam e o colégio liberava os alunos, ele acompanhava o ritmo mais lento de seus amigos. Eles esticavam o tempo, ficando alguns minutos a mais do lado de fora, ao redor de uma vendinha de doces e salgados que ficava bem perto do portão de ferro da escola.
A vendinha do Seu Miro era um universo à parte. O cheiro de óleo queimado dos salgados fritos misturava-se ao aroma adocicado de chicletes de morango e refrigerante caçulinha. O chão ao redor do balcão de madeira ficava juncado de papéis de bala e canudos plásticos. Era ali que o verdadeiro choque social acontecia.
Aquele cenário pós-aula era uma "nova foto" para a coleção de Toni. Uma imagem que o perturbava e o atraía ao mesmo tempo. Nos arredores da vendinha, sob a sombra de uma árvore frondosa, viam-se grupos mistos. Meninos e meninas conversavam de perto. Aliás, tão perto que Toni achava aquilo fisicamente desconfortável de assistir.
Em um desses dias, enquanto Danilo comprava um doce de leite, um empurrão na calçada apertada fez Toni dar dois passos cambaleantes para trás. Ao tentar se equilibrar, ele esbarrou de ombro com alguém que vinha no sentido oposto.
— Opa, desculpa! — disse uma voz feminina, leve e rápida.
Toni virou o rosto num reflexo. Era a tal Fernanda. Aquela mesma que fizera Danilo suspirar mais cedo no banco. Ela segurava um caderno contra o peito, os cabelos presos em um rabo de cavalo que balançou perto do rosto de Toni. Ela deu um sorriso rápido de desculpas e continuou andando em direção ao grupo de amigas.
Toni travou no lugar. O ombro onde ela havia encostado parecia formigar. Ele não conseguiu dizer nem um "tudo bem". Sua boca simplesmente secou. Olhou para os lados para ver se Rafael ou Danilo tinham presenciado o seu momento de estátua, mas os dois continuavam distraídos com as moedas no balcão do Seu Miro.
Não pode ser, ele pensava, os olhos semicerrados enquanto recuperava o fôlego. Por que eles conversam tão fácil? O que significa isso?
Ele desviava o olhar para o outro lado da rua de paralelepípedos e o choque era ainda maior. Havia alguns casais ali, encostados no muro da padaria, simplesmente abraçados. Não era um abraço rápido de aniversário, daqueles que ele dava na mãe ou na avó. Era um abraço demorado, onde as cabeças se encaixavam e o tempo parecia parar para eles. Isso pode? Como a direção da escola permite isso na calçada? Ninguém vai brigar com eles?, os questionamentos morais e infantis martelavam a sua cabeça.
Sentindo-se completamente deslocado daquela nova realidade anatômica e social, ele se despedia de Rafael e Danilo com um aceno de mão tenso. Caminhava em direção a sua casa, a cada dia mais confuso, com a mente pesada de dúvidas que ele não tinha coragem de verbalizar para ninguém.
No entanto, a infância ainda guardava seus últimos cartuchos de proteção. Assim que cruzava o limiar de seu lar, o cheiro do feijão fresco parecia resetar sua mente. Ele tomava um banho gelado, almoçava assistindo a qualquer coisa na televisão e, por algumas horas, o turbilhão evaporava. Ele nem lembrava de mais nada daquela estranha espécie feminina.
Mais tarde, o sol começava a baixar e a febre da rua o chamava. Ele saía para comprar um pão a pedido da mãe ou para jogar bola e correr com seus amigos do bairro, Gustavo e Diego. Mas a blindagem havia sido rompida. A visão que ele tinha do mundo nunca mais seria a mesma.
Agora, até caminhando pela própria vizinhança, seus olhos agiam como um radar descontrolado. Ele começou a reparar nos casais de namorados mais velhos que desfilavam pela rua para lá e para cá, de dedos entrelaçados, rindo de coisas que só eles entendiam.
O mundo parecia ter virado um grande filme de romance que Toni não queria assistir, mas não conseguia desligar a tela.
Certa tarde, parado no cantinho da calçada, bem de longe, escondido atrás da sombra de um portão de ferro abaulado, Toni avistou sua prima Mila. Ela tinha treze anos e estava na calçada da frente, gesticulando freneticamente enquanto conversava com suas duas amigas inseparáveis, Patrícia e Pâmela. As três riam alto, batiam palmas e cochichavam, aproximando as cabeças como se estivessem tramando um plano de espionagem.
Toni ficou estático, observando o movimento dos lábios delas de longe.
O que elas estão conversando tanto?, ele pensou, sentindo um incômodo esquisito no peito. Será que é sobre futebol? Será que estão planejando um campeonato de bolinha de gude no terreno baldio? Ele piscou, tentando processar a imagem daquelas três garotas quase adolescentes.
Um pensamento defensivo, um micro-refúgio de sua mente de menino, flutuou em sua consciência como uma boia de salvação: Ah... deve ser sobre bonecas. É claro. É um segredo de bonecas, só pode ser isso, né?
Ele deu as costas, apertou o passo em direção à sua casa e tentou se convencer daquela mentira confortável. Quando os meninos chamaram ele para jogar futebol.e ele passou o resto da tarde jogando bola com os amigos.
O mundo dos adultos estava batendo à sua porta, e ele não tinha a menor ideia de como abrir.