O Peso do Descuido
A luz azul da Central de Triagem Interdimensional piscavam com um zumbido elétrico quase imperceptível, mas que incomodava os nervos já desgastados de Ziria. O ar ali dentro tinha gosto de ozônio e metal escovado. À sua frente, a assistente da imigração digitava em um teclado holográfico com uma velocidade fria e burocrática. Cada bipe do sistema parecia uma contagem regressiva para o fim de sua carreira.
Ziria respirou fundo, cruzando os braços para esconder o leve tremor em suas mãos. Ela começou a explicar o inexplicável.
— Eu estava na cola… — começou ela, a voz ligeiramente mais baixa do que o normal, tentando evitar que o eco da sala levasse suas palavras até ouvidos indesejados. — Um infrator dimensional clássico. Movimentação ilegal de carga biológica, transporte não autorizado entre os quadrantes da realidade. Eu o tinha encurralado na borda do Setor 7. Mas... eu me descuidei. Um milésimo de segundo de distração foi o suficiente ele fugiu e mim deparei com esse aqui.
A assistente nem sequer levantou os olhos da tela translúcida. O brilho verde dos dados refletia em suas pupilas artificiais.
— E esse ser aproveitou a brecha — continuou Ziria, engolindo em seco. — Ele atravessou o portal. E, por um motivo pessoal... um motivo que eu não posso e não vou revelar... eu não consegui aplicar o procedimento padrão de contenção e captura adequado para essa situação. Eu quebrei o protocolo.
A assistente finalmente parou de digitar. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ela olhou para Ziria com uma mistura de pena e severidade profissional.
— Você tem plena consciência do que está dizendo, Ziria? — a assistente falou, sua voz ecoando com a rigidez de quem conhece o código penal interdimensional de cor. — Você sabe perfeitamente a punição que poderá pegar por essa negligência. Estamos falando de rebaixamento de patente, suspensão e, na pior das hipóteses, confinamento no Nexo Clandestino e expulsão.
Ziria permaneceu em silêncio, o maxilar trancado. Ela sabia.
— Eu não posso fazer absolutamente nada por você desta vez — suspirou a assistente, fechando o arquivo principal com um gesto rápido no ar. — Minhas mãos estão atadas pelo sistema. O que vou fazer é encaminhar você e esse ser para um outro setor da imigração, onde o escrutínio é menor.
Felizmente para você, vou colocar o caso nas mãos de um grande amigo meu que trabalha lá. Ele pode atrasar a papelada oficial. Mas vamos iniciar agora o registro formal desse ser. Não há mais tempo a perder. Vamos para a sala de avaliação física e mágica.
A Sala de Avaliação
A sala de avaliação parecia um cruzamento entre um laboratório de tortura medieval e um centro cirúrgico de última geração. No centro, o administrador Max esperava por eles. Max era um homem de feições duras, cujo corpo exibia implantes cibernéticos que brilhavam em tom âmbar, denotando sua alta patente na segurança dimensional.
Ao chegarem, o olhar de Max fixou-se imediatamente na figura franzina que acompanhava Ziria. Era um garoto. Seus olhos eram grandes, assustados, e ele vestia roupas gastas que pareciam grandes demais para o seu corpo miúdo.
Com um gesto seco e autoritário, Max ordenou que o menino se movesse.
— Vá para o canto da sala. Perto daquela máquina — comandou Max, apontando para um enorme arco metálico que emitia uma pulsação magnética constante, muito semelhante a uma máquina antiga de raio-x terrestre, mas cercada por runas flutuantes que mediam a densidade da alma.
O garoto obedeceu, encolhendo os ombros, os pés descalços arrastando-se pelo chão de metal frio congelante.
— Respire fundo — pediu Max, a voz ecoando pelos alto-falantes da sala de comando isolada por um vidro blindado. — Levante os braços. Agora abaixe. Em sequência. Três vezes. Vamos, ande logo com isso.
O menino seguiu as instruções fielmente. Uma, duas, três vezes. A cada movimento, o arco disparava flashes de luz ultravioleta que escaneavam seus ossos, seus órgãos e a assinatura térmica de suas células.
Enquanto o teste rodava, Ziria permanecia estática ao lado do painel de controle, observando fixamente os gráficos e os dados físicos que começavam a preencher a tela. Suas suspeitas foram confirmadas numericamente. Fisicamente, o garoto estava drasticamente abaixo da média para qualquer humanoide da sua faixa etária.
densidade óssea frágil e batimentos cardíacos acelerados pelo puro terror.
Mas o verdadeiro choque veio no painel seguinte: o indicador de energia arcana.
— Magia... — murmurou Max, analisando os gráficos que mal saíam da linha de base.
O administrador soltou um suspiro de frustração. Ele apertou.
