🔞 Classificação Indicativa: 14 anos (Contém suspense, ficção científica e mistério,Contém dilemas interpessoais, pressão psicológica)
O Alívio de Caio e o Sumiço de Toni
O comando da professora foi o sinal verde que ele precisava. Por sua vez, Caio respirou mais tranquilo, soltando o ar que parecia preso em seus pulmões há minutos. Ele caminhou em direção à sua cadeira sentindo-se bem aliviado após o teste de fogo.
Sentou-se e ajeitou o material sobre a mesa, sentindo a adrenalina finalmente baixar. O motivo de seu alívio era estratégico e de longo prazo: seus planos de ser um estudante popular esse ano estavam, por enquanto, totalmente salvos. Caio tinha uma meta clara para aquele período letivo, e a construção de sua imagem pública na escola era uma prioridade absoluta.
Na sua visão de mundo estudantil, levar uma bronca pública ou ficar de birra com uma das maiores celebridades da escola era uma catástrofe completa para qualquer um que almejasse o topo da hierarquia social da instituição. Ter a antipatia de uma figura tão influente destruiria sua reputação antes mesmo que o semestre engrenasse.
Com o perigo afastado pelo seu raciocínio rápido, a ordem foi reestabelecida. A aula ocorreu sem problemas maiores, seguindo o cronograma pedagógico planejado de forma fluida. O conteúdo era exposto na lousa, os cadernos eram preenchidos e a dinâmica seguia seu curso natural, tirando o fato de um detalhe incomum na frequência da turma: apenas um aluno não ter comparecido à sala de aula logo ao primeiro dia.
Esse aluno ausente era Toni. Enquanto a aula avançava no colégio, Toni vivia uma realidade completamente paralela e frustrante em outro ponto da cidade. O jovem encontrava-se em um estado de total ignorância quanto ao que estava acontecendo com o seu tempo. Ele saiu de casa sem perceber o fato crucial que determinaria o fracasso da sua manhã: o seu relógio despertador estava exatamente duas horas atrasado.
Essa falha temporal não havia ocorrido por culpa dele, que sempre fora sistemático com seus alarmes mecânicos. O verdadeiro motivo da sabotagem tinha apenas 8 anos de idade.
Sua irmã de 8 anos, em uma explosão de travessura infantil, um dia antes decidiu pregar uma grande peça no irmão mais velho. Escondida no quarto dele, ela manipulou cuidadosamente os ponteiros e as engrenagens do aparelho, atrasando o marcador para garantir que o irmão perdesse o início das aulas.
Toni, demonstrando seu traço de personalidade como de costume, bem desligado do mundo exterior e imerso em seus próprios pensamentos, acordou quando o aparelho tocou, acreditando piamente que estava no horário correto.
A Jornada Desatenta de Toni
Toni levantou-se da cama com a tranquilidade de quem está rigorosamente dentro do cronograma. Vestiu o uniforme da instituição, organizou sua mochila com os materiais novos do primeiro dia e saiu de casa a passos firmes.
Durante todo o trajeto em direção à escola, seu comportamento aéreo o blindou da realidade. Ele caminhou pelas calçadas movimentadas, desceu as escadas de acesso ao transporte público e nem reparou nos grandes painéis eletrônicos de horários que ficavam fixados nas paredes das estações e nas plataformas do metrô.
Os letreiros digitais piscavam os minutos e as horas corretas para centenas de passageiros apressados, mas os olhos de Toni passavam por eles sem registrar a informação discrepante. Ele entrou no vagão, fez a viagem e desembarcou mantendo a ilusão de pontualidade.
A ficha só foi realmente cair quando seus passos o levaram até o destino final. Ele só foi perceber o erro crônico quando chegou no grande e majestoso portão de entrada da instituição educacional. O cenário que encontrou era desolador para um estudante no primeiro dia: a enorme estrutura de metal e ferro trabalhado estava devidamente fechada, trancada contra o acesso tardio. Não havia o fluxo de estudantes, não havia carros estacionados descarregando passageiros, apenas o silêncio da manhã já avançada.
Mesmo diante da barreira física do metal fechado, a mente de Toni se recusava a aceitar o fato. Ele tinha a certeza absoluta interna de que cumprira o horário estipulado pelo edital da escola. Olhou para o próprio pulso, conferiu mentalmente os minutos e, tomado por uma mistura de indignação e confusão, aproximou-se da guarita de segurança.
Com a voz alterada pelo cansaço do trajeto, ele pediu uma explicação ao porteiro que estava de plantão, questionando o motivo de a entrada estar bloqueada se os seus cálculos de tempo estavam corretos.
O funcionário da escola, acostumado com os atrasos do primeiro dia, não precisou proferir uma única palavra para desbancar a certeza do jovem. O porteiro apenas esticou o braço e apontou diretamente para um moderno relógio de holograma que flutuava no canto superior do portão principal, emitindo uma luz azulada que contrastava com a luz do dia.
Os dígitos luminosos no ar mostravam, sem margem para dúvidas, que a aula já estava quase no fim. Ainda assim, diante da prova tecnológica incontestável, Toni ficou completamente estático, parado no meio da calçada. Seus olhos iam do holografa para o vazio, procurando entender o que realmente estava acontecendo com a sua linha do tempo.
Foi só após longos instantes de choque cognitivo que a sua memória começou a resgatar os eventos da noite anterior. Ele lembrou vagamente de ter visto os cabelos de sua irmãzinha perto de sua escrivaninha e de ela estar a brincar de forma suspeita com seu despertador. A peça estava consolidada.
