Tímido ao Extremo - Capítulo 2: A Espécie Invisível (garotas)

 



Capítulo 2: A espécie Invisível (garotas)


A rotina de Toni não ruiu de uma hora para outra; ela desmoronou em câmera lenta, como uma estrutura cujas bases vão sendo roídas por pequenas certezas que deixam de fazer sentido. Ir para a escola, um rito que antes se resumia à obrigação enfadonha de copiar a matéria do quadro-negro e à pressa febril de encontrar Rafael e Danilo para rir de piadas bobas, ganhou um contorno totalmente novo. O colégio, de repente, havia se transformado em um território de caça visual. Um laboratório vivo. Durante os intervalos das aulas ou nos minutos barulhentos do recreio, Toni se pegava fazendo algo que, meses atrás, consideraria uma completa perda de tempo: ele observava as garotas da sétima e da oitava série passarem.


Não era apenas o caminhar delas que mudara, ou a forma como amarravam as jaquetas de uniforme na cintura. O que mais assustava Toni era a mudança drástica no vocabulário de seu próprio grupo. Rafael, Danilo, Gustavo e Diego pareciam ter baixado uma atualização de sistema que Toni não recebeu. Um novo tema, permanente e quase obsessivo, havia sido acrescentado às calorosas discussões que aconteciam nos cantos do pátio. Eles não debatiam mais se o herói do videogame venceria o vilão, ou se o gol de calcanhar no futebol de rua havia sido legítimo. Agora, o assunto eram elas. Quem era a mais linda? Quem era a mais popular? Quem tinha o sorriso mais bonito?


Toni assistia, entre o fascínio e o puro estranhamento, aos suspiros pesados e teatrais de seus amigos.


— Cara... olha a Fernanda — dizia Danilo, com os olhos fixos em um ponto flutuante no corredor.


Espera aí, Toni pensava, sentindo um nós de interrogações se formar em sua mente. Quem é mesmo a Fernanda? De onde ela surgiu? Ele se questionava em silêncio, genuinamente intrigado sobre como, do dia para a noite, tantas meninas pareciam ter brotado no chão do colégio. Ele estudava ali desde o início do ciclo, mas parecia que uma névoa havia sido retirada de seus olhos. Olhava para outra garota que ria perto do bebedouro e entrava em um parafuso mental: Será que ela foi transferida no meio do ano para a nossa sala e eu simplesmente não percebi? Como eu passei tanto tempo sem enxergar essas pessoas?


Essas indagações internas eram tão densas que, frequentemente, o isolavam do mundo ao redor. Ele se perdera na imensidão daqueles pensamentos, os olhos fixos no vazio, a mente viajando por órbitas distantes.


— Hein? Olá! Terra para Marte! Tem alguém aí na escuta? — A voz de Danilo cortou o silêncio mental de Toni como um trovão.


Toni deu um solavanco na carteira, piscando repetidamente, os ombros subindo em um reflexo de susto. Ele acordou do súbito transe em que se encontrava, sentindo o rosto esquentar ligeiramente.


— Olha lá, ele viajou anos luz de distância — zombou Rafael, cutucando Danilo com o cotovelo e apontando para a cara de tonto que Toni devia estar fazendo.



Toni tentou disfarçar, pigarreando, enquanto ajeitava as alças da mochila nas costas.


— Você... você disse alguma coisa, Danilo? — perguntou, a voz saindo um pouco mais baixa do que o normal.


Os dois amigos explodiram em uma linda e ruidosa gargalhada que ecoou pelo corredor. Rafael, limpando uma lágrima falsa do canto do olho, enfatizou entre risos:


— Eu disse certo, está vendo? O cara nem estava aqui com a gente. Estava em outra galáxia!


Os três amigos estavam de pé em frente à sala onde estudavam, exatamente ao lado de um banco de madeira maciça, cujo verniz já havia descascado há anos devido ao atrito de centenas de calças jeans. Aquele banco, no entanto, não era um móvel qualquer; era a "propriedade" deles. Havia uma regra não escrita no colégio de que aquele quadrado de madeira pertencia ao trio. Assim que o sino velho da escola ecoava pelo pátio de cimento, anunciando o intervalo das aulas — a pausa tão esperada e salivada para a merenda —, eles não corriam para a fila do refeitório. A priority máxima era se apressar para se instalar naquele lugar estratégico.


Dali, sentados lado a lado, eles tinham uma visão panorâmica e privilegiada. Conseguiam enxergar não apenas a porta da própria sala de aula, mas todo o fluxo do corredor principal da escola. Era o ponto perfeito para ver todos os alunos transitarem, principalmente aqueles seres que, até outro dia, eram perfeitamente invisíveis aos olhos de Toni.


Sentado no meio dos dois, Toni tentava encolher os ombros para não parecer que estava vigiando o corredor. Rafael, no entanto, não dava trégua.


— Ô Toni, para de bobeira — cutucou Rafael, esticando as pernas compridas. — Fala aí, da nossa sala, quem você acha mais ajeitada? A Marina ou a Letícia? Não vale dizer 'nenhuma'.


O coração de Toni deu um salto desajeitado no peito. Ele sentiu o suor frio brotar na palma das mãos, o mesmo suor que aparecia quando o professor de matemática o chamava para resolver uma conta na lousa. Ele olhou para os próprios tênis de lona desbotados, tateando o cérebro atrás de uma resposta que soasse normal, que não gerasse mais piadas.


— Sei lá... — gaguejou Toni, ajeitando os óculos ou coçando a nuca para ganhar tempo. — Elas são... normais. A Marina joga queimada bem.


Danilo soltou um estalo com a língua, balançando a cabeça em sinal de desaprovação.


— Que queimada o que, Toni! Você não repara em nada mesmo. A Letícia mudou o corte de cabelo ontem, ficou mó diferente. Você tá cego?


Toni deu um sorriso amarelo, fingindo concordar, mas por dentro sentia um alívio imenso quando o sinal estridente da escola tocou novamente, obrigando todos a se levantarem e marcharem de volta para as salas. Ele havia escapado daquela sabatina, mas sabia que o assunto voltaria na saída.


A mudança na rotina, contudo, não se limitava ao espaço de dentro dos muros da escola. O comportamento de Toni após o sinal de saída também havia sofrido uma mutação. Antes, o reflexo dele ao ouvir o último sinal era disparar pelo portão afora, correndo para o conforto de sua casa. Agora, em vez de sair imediatamente quando as aulas terminavam e o colégio liberava os alunos, ele acompanhava o ritmo mais lento de seus amigos. Eles esticavam o tempo, ficando alguns minutos a mais do lado de fora, ao redor de uma vendinha de doces e salgados que ficava bem perto do portão de ferro da escola.


A vendinha do Seu Miro era um universo à parte. O cheiro de óleo queimado dos salgados fritos misturava-se ao aroma adocicado de chicletes de morango e refrigerante caçulinha. O chão ao redor do balcão de madeira ficava juncado de papéis de bala e canudos plásticos. Era ali que o verdadeiro choque social acontecia.


Aquele cenário pós-aula era uma "nova foto" para a coleção de Toni. Uma imagem que o perturbava e o atraía ao mesmo tempo. Nos arredores da vendinha, sob a sombra de uma árvore frondosa, viam-se grupos mistos. Meninos e meninas conversavam de perto. Aliás, tão perto que Toni achava aquilo fisicamente desconfortável de assistir.


Em um desses dias, enquanto Danilo comprava um doce de leite, um empurrão na calçada apertada fez Toni dar dois passos cambaleantes para trás. Ao tentar se equilibrar, ele esbarrou de ombro com alguém que vinha no sentido oposto.



— Opa, desculpa! — disse uma voz feminina, leve e rápida.



Toni virou o rosto num reflexo. Era a tal Fernanda. Aquela mesma que fizera Danilo suspirar mais cedo no banco. Ela segurava um caderno contra o peito, os cabelos presos em um rabo de cavalo que balançou perto do rosto de Toni. Ela deu um sorriso rápido de desculpas e continuou andando em direção ao grupo de amigas.


Toni travou no lugar. O ombro onde ela havia encostado parecia formigar. Ele não conseguiu dizer nem um "tudo bem". Sua boca simplesmente secou. Olhou para os lados para ver se Rafael ou Danilo tinham presenciado o seu momento de estátua, mas os dois continuavam distraídos com as moedas no balcão do Seu Miro.


Não pode ser, ele pensava, os olhos semicerrados enquanto recuperava o fôlego. Por que eles conversam tão fácil? O que significa isso?


Ele desviava o olhar para o outro lado da rua de paralelepípedos e o choque era ainda maior. Havia alguns casais ali, encostados no muro da padaria, simplesmente abraçados. Não era um abraço rápido de aniversário, daqueles que ele dava na mãe ou na avó. Era um abraço demorado, onde as cabeças se encaixavam e o tempo parecia parar para eles. Isso pode? Como a direção da escola permite isso na calçada? Ninguém vai brigar com eles?, os questionamentos morais e infantis martelavam a sua cabeça.


Sentindo-se completamente deslocado daquela nova realidade anatômica e social, ele se despedia de Rafael e Danilo com um aceno de mão tenso. Caminhava em direção a sua casa, a cada dia mais confuso, com a mente pesada de dúvidas que ele não tinha coragem de verbalizar para ninguém. No entanto, a infância ainda guardava seus últimos cartuchos de proteção. Assim que cruzava o limiar de seu lar, o cheiro do feijão fresco parecia resetar sua mente. Ele tomava um banho gelado, almoçava assistindo a qualquer coisa na televisão e, por algumas horas, o turbilhão evaporava. Ele nem lembrava de mais nada daquela estranha espécie feminina.


Mais tarde, o sol começava a baixar e a febre da rua o chamava. Ele saía para comprar um pão a pedido da mãe ou para jogar bola e correr com seus amigos do bairro, Gustavo e Diego. Mas a blindagem havia sido rompida. A visão que ele tinha do mundo nunca mais seria a mesma.


Agora, até caminhando pela própria vizinhança, seus olhos agiam como um radar descontrolado. Ele começou a reparar nos casais de namorados mais velhos que desfilavam pela rua para lá e para cá, de dedos entrelaçados, rindo de coisas que só eles entendiam. O mundo parecia ter virado um grande filme de romance que Toni não queria assistir, mas não conseguia desligar a tela.


Certa tarde, parado no cantinho da calçada, bem de longe, escondido atrás da sombra de um portão de ferro abaulado, Toni avistou sua prima Mila. Ela tinha treze anos e estava na calçada da frente, gesticulando freneticamente enquanto conversava com suas duas amigas inseparáveis, Patrícia e Pâmela. As três riam alto, batiam palmas e cochichavam, aproximando as cabeças como se estivessem tramando um plano de espionagem.



Toni ficou estático, observando o movimento dos lábios delas de longe.


O que elas estão conversando tanto?, ele pensou, sentindo um incômodo esquisito no peito. Será que é sobre futebol? Será que estão planejando um campeonato de bolinha de gude no terreno baldio? Ele piscou, tentando processar a imagem daquelas três garotas quase adolescentes. Um pensamento defensivo, um micro-refúgio de sua mente de menino, flutuou em sua consciência como uma boia de salvação: Ah... deve ser sobre bonecas. É claro. É um segredo de bonecas, só pode ser isso, né?


Ele deu as costas, apertou o passo em direção à sua casa e tentou se convencer daquela mentira confortável. Mas, no fundo, bem no fundo, Toni sabia que o tempo das bonecas e dos carrinhos estava escorrendo pelos seus dedos como areia fina. O mundo dos adultos estava batendo à sua porta, e ele não tinha a menor ideia de como abrir.


Em breve capítulo 3


Postar um comentário

Anterior Próxima

نموذج الاتصال