Cidade Dos Sonhos - Onde a Fantasia se torna Realidade - Capítulo 1


     


               Dois amigos descobrem um portal oculto na Chapada Diamantina que os leva à lendária Cidade dos Sonhos




Capítulo 1 : A entrada do impossível

Os velhos da praça costumavam dizer que a Chapada Diamantina não guardava apenas diamantes esquecidos pelos garimpeiros do século passado, mas também os próprios limites da realidade. Sentados nos bancos de madeira sob a sombra das amendoeiras, com o cigarro de palha fumegando entre dedos calejados, eles falavam sobre a Vila dos Sonhos.


Para Patrick e Carlinhos, aquelas histórias eram mais do que passatempo para as tardes quentes de domingo. Eram um chamado que pulsava forte no peito.


Patrick, aos seus 13 anos, tinha a pele parda do tom da terra queimada pelo sol da Bahia e os olhos sempre atentos, curiosos por tudo o que a vida no interior tentava esconder. Seu melhor amigo, Carlinhos, era um ano mais velho. Aos 14 anos, o garoto negro exibia um sorriso largo que contrastava com sua pele retinta e brilhante, além de uma altura que o fazia parecer o líder natural daquela dupla de exploradores. Os dois cresceram ouvindo os mesmos relatos sussurrados por pais, avós e vizinhos. Dizia-se que, escondida em alguma fenda esquecida pelos mapas oficiais, existia uma civilização isolada onde a dor e o sofrimento eram mitos de um mundo distante.


Na Vila, as casas não eram feitas de tijolos e argamassa, mas esculpidas por uma força invisível em tamanhos monumentais, erguendo-se como palácios de cristal e rocha polida. Tudo lá era movido por magia. As plantações não dependiam da chuva ou do suor do homem; árvores antigas davam frutos dourados que, segundo as lendas, concediam superforça a quem os mordesse. Animais exóticos, com pelagens que mudavam de cor e olhos que carregavam a inteligência de filósofos, caminhavam pacificamente entre os moradores.


Aquilo parecia um conto de fadas para os turistas que visitavam o local ou fizessem a trilha do Vale perto dali, mas para a dupla, era a mais pura verdade. Uma verdade que exigia ser encontrada.


Todos os dias, logo após o término das obrigações escolares, os dois calçavam seus tênis mais velhos, pegavam suas mochilas com algumas garrafas de água e seguiam em direção aos pés da grandiosa Chapada. O cenário era sempre imponente: os paredões de rocha avermelhada erguiam-se como gigantes que guardavam segredos milenares, cobertos por uma vegetação rasteira e densa. Eles passavam horas e horas caminhando pelos caminhos de terra batida, inspecionando cada gruta, cada fenda e cada contorno das pedras. A determinação dos garotos era inabalável, mesmo quando o sol começava a castigar a pele ou quando as pernas protestavam pelo cansaço.


O tempo passou, e as buscas diárias transformaram-se quase em um ritual de passagem. Até que aquele dia de outono chegou para mudar tudo.


O entardecer na Chapada Diamantina sempre foi um espetáculo à parte. O céu tingia-se de tons que variavam do laranja-escuro ao violeta profundo, projetando sombras longas e dramáticas no chão de pedregulho. Patrick estava alguns metros atrás, limpando o suor da testa com as costas da mão parda e praguejando baixinho pelo calo que começava a abrir em seu calcanhar direito.


— Patrick! Venha logo ver isso! Tem alguma coisa ali na névoa! — o grito de Carlinhos ecoou pelo cânion, cortando o silêncio da tarde com uma urgência que fez o coração de Patrick disparar.


Carlinhos estava parado na entrada de uma fenda estreita, quase invisível para quem olhasse de longe. A abertura na rocha parecia ter sido rasgada por um raio antigo. O mais estranho, contudo, não era a fenda em si, mas o que saía dela. Uma névoa espessa, de um tom azul-esbranquiçado, deslizava pelo chão como se estivesse viva, desafiando o vento forte daquela altitude que deveria dissipá-la instantaneamente.


Patrick correu, esquecendo a dor no pé. Quando alcançou o amigo, a silhueta esguia e negra de Carlinhos se destacava contra o brilho pálido da névoa. Os dois pararam lado a lado, hipnotizados.


À medida que avançaram um passo para dentro da fenda, forçando a visão através da névoa densa, o vapor começou a se afastar, revelando uma estrutura inacreditável. Era uma espécie de portão, mas não guardava nenhuma semelhança com os portões que os garotos conheciam. Não havia madeira apodrecida pelo tempo, nem o ferro enferrujado das fazendas da região.


O material daquela estrutura parecia desafiar as próprias leis da física e da lógica. Tinha uma textura que lembrava mercúrio líquido, brilhando com um reflexo metálico constante, mas permanecia absolutamente sólido e imóvel. Runas e padrões geométricos complexos pulsavam suavemente em sua superfície, brilhando com uma luz dourada que parecia emanar de dentro do próprio material. O portão não tinha fechadura, maçaneta ou dobradiças. Ele simplesmente flutuava, milimetricamente suspenso, na parede da rocha.




Os garotos recuaram um passo, os olhos arregalados de puro espanto. O silêncio que se instalou ali dentro era absoluto; até o som do vento lá fora parecia ter sido abafado por uma barreira invisível.


Por um breve momento, o peso da realidade desabou sobre os ombros de Patrick e Carlinhos. Eles ficaram completamente pensativos. Entrar ou não entrar? Dar uma olhadinha ou dar meia-volta e fingir que nada daquilo era real? Aquilo era esquisito demais. Era assustador. O que quer que estivesse do outro lado daquele portão de metal líquido não pertencia ao mundo que eles conheciam, ao mundo das salas de aula, do almoço de domingo e das conversas calmas na praça da cidade.


Eles se encararam. Não precisaram dizer uma única palavra. No silêncio cúbico da fenda, os pensamentos dos dois amigos se cruzaram em uma sintonia perfeita, moldada por anos de buscas e sonhos compartilhados.


Vamos lá? Será que é realmente a Vila? — a pergunta ecoou na mente de ambos de forma quase telepática.


Carlinhos engoliu em seco e estendeu a mão direita em direção à superfície pulsante do portão. Patrick, embora sentisse as pernas tremerem, deu um passo à frente, recusando-se a deixar o amigo sozinho. Se aquele fosse o portal para a mítica civilização onde a dor não existia, eles cruzariam juntos.


No instante em que a ponta dos dedos de Carlinhos tocou o material brilhante, a superfície líquida do portão reagiu. Ondulações concêntricas, como pedras jogadas em um lago calmo, espalharam-se pela estrutura. A luz dourada das runas intensificou-se, tornando-se tão forte que os obrigou a fechar os olhos. Um som grave e vibrante, semelhante ao de um sino antigo ecoando no topo de uma montanha, ressoou dentro de seus peitos.


A gravidade pareceu falhar por um segundo. Patrick sentiu o chão sumir sob seus pés, enquanto uma força magnética e suave o puxava para frente, arrastando-o para dentro do brilho cegante. Ele esticou o braço às cegas, encontrando a mão de Carlinhos no meio do clarão. Eles se seguraram firme, o contraste de suas pelis parda e negra sumindo na imensidão da luz dourada.


A sensação de queda durou apenas um suspiro. Quando a luz finalmente diminuiu e os pés dos garotos tocaram novamente o solo sólido, o ar mudou. Não era mais o ar seco e quente da caatinga que cercava a Chapada, mas uma brisa fresca, com cheiro de terra molhada, flores silvestres que eles nunca haviam visto e algo doce que flutuava no ambiente.


Patrick abriu os olhos lentamente, piscando contra a claridade de uma noite que parecia brilhar de uma forma diferente, mais viva e dourada. Ao seu lado, Carlinhos soltou o ar que prendia nos pulmões em um assobio longo e reverente.


                 


Eles não estavam mais na fenda.


À frente deles, estendendo-se por um vale verdejante que parecia não ter fim, erguia-se uma civilização que desafiava qualquer imaginação humana.


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